TEXTOS ANTIGOS

Ao invés de organização semanal, mensal ou simplesmente por postagem, o histórico fica gravado por momentos episódicos: diversos textos que, subjetivamente, deveriam ser um só.

Primeira temporada: sete textos para falar dos sonhos do último sono. As estórias narradas, amplamente subjetivas, permitem uma interpretação pessoal e única de cada um. A intenção foi elaborar textos de um momento solo de reflexão: oscilando entre o caminho escorreito e autruísta do sentimento; oscilando no egoísmo e percepções desagradáveis.

Segunda temporada: nada melhor do que saber que nossas lembranças às vezes se passam por fotografias, e instrumento da memória é o que melhor pode definir aquilo lembramos quando fechamos os olhos. A idéia era trazer para um texto breve tudo aquilo que poderia se passar pela nossa cabeça ao lembrar de um acontecimento, seja ele ruim de uma pessoa que se ama, de coisas do passado que ainda estão engasgadas no nosso pensamento, de um momento comum e maravilhoso, de um sonho ou daquilo que queremos muito nos lembrar mas não conseguimos.

Terceira temporada: textos sobre ocultismo, sobre as dimensões negras do espírito. As passagens seguem a linha de pensamento tradicional daqueles que procuram enfeitar no gótico ou enegrecer o coração com passagens geladas de sentimentos. A idéia foi reprisar textos antigos muito difíceis de saber o que são, mas que, com certeza, todos, um dia, produziram algo parecido. E ler para ficar encantado com o que é etéreo e teoricamente pacífico.

O blog tem um acervo de 162 postagens. Mas, para os efeitos da nova modalidade de organização, alguns foram cravados como inacessíveis. E algumas temporadas ainda precisam ser remodeladas e republicadas. Se faltar alguma coisa, é porque está faltando mesmo.

HISTÓRICO DO BLOG NA WEB

É admissível a falta de exatidão do que aqui, logo abaixo, se conta. Mas faz parte daquele sabor tão nosso de contar a mesma história. Sempre que possível, passarei aqui para reformar trechos, polir melhormente as idéias e saber, inevitavelmente, que as coisas existem para serem recontadas.

2001 - A maioria das pessoas começam a escrever para buscar um pouco de sossego e solidão. Um pouco de si mesmas, aliás. Um pouco daquela parte que não conhece ou não entende como funciona. Comigo não poderia ser diferente - a não ser pela depressão. Poxa, como eu quis ficar depressivo... mas não conseguia, não tinha jeito. E eu acabava até me chateando por causa disso.

Pior que era uma vontade doida de ficar artificialmente diferente. Como se eu pudesse ser extremamente azulado e as pessoas, enfim, notassem: "Nossa, como você está azulado!". E eu poderia ficar mais feliz. Não, não poderia. Eu não estava com depressão. Mas bucava alguma coisa dentro de mim mesmo que precisava colocar para fora, como se fosse o pinto naquela hora crucial do sexo.

De sorte eu pude recorrer à escrita para, ao menos, materializar as idéias vagas, perdidas. E depois de um tempo, não há nada melhor do que poder reler aquilo que se pensa, para se saber o tanto que injusto e bobos nós somos.

Mas quando coisas nobres, bem pensadas etc. etc. etc. e tal ganham o papel, deixando aquilo que era indivísível em partes iguais, proporcionais e fáceis de manipular, você pensa: "Puxa, bem que fulano de tal podia dar uma lida nisso. Estou falando de mim, mas estou vendo ele. Que merda!". E é aí que começa o blog, literalmente. Primeiro ganhando páginas de um caderno velho e sedendo da moléstia da consulta alheia. E eu facilitei isso, confesso. Por isso nunca encarei escrever como se fosse um diário. Ainda bem.

2002 - Mesmo depois de vários anos usando internet (desde 1996), resisti bem à idéia de publicar meus textos. Selecionar as pessoas que podem conhecer meu íntimo (no tal caderno) através de um texto próprio é uma coisa. Ainda mais porque você pode acrescer argumentos enrolativos se alguma coisa der errado. Mas expor para o universo anônimo, onde mil e uma idéias além ou aquém funcionam ao mesmo tempo, é bem complicado. Principalmente naquela época, em que a publicidade pessoal na internet era inabitual. Até perigosa.

E se anônimos aqui podiam estar, anônimo eu também podia ser. E fui. Fui um serzinho anônimo bem infernal.

Tratei de inventar um protótipo de blog naqueles antigos sites de hospedagem. E sua existência foi até razoável. Mas tinha de ficar tão em segredo que não havia como divulgar para meus amigos. Infelizmente eu fazia o favor de caricaturar meus conhecidos em persona... neles mesmos. Putaqueopariu! Isso deu uma confusão da grossa.

Como eu ainda estava sofrendo daquela verticalização literária - digo verticalização no sentido de me colocar ascendente a todos meus conhecidos - não havia como dissipar meu dia-a-dia do dia-a-dia de quem convivia comigo. E, convenhamos, a turma da faculdade era a pior de todas. Foi então que eu comecei a perder a ponta do lápis naquela separação, divisão coerente do justo e injusto. Sim, eu estava excedendo a minha vontade de ser diferente e mostrar o diferente para diferenciar os outros. Complicado, não? Imagine o naipe do texto. Tão crítico quanto ácido.

E assim foi um ano inteiro: descendo a lenha em todo mundo.

2003 - No meio deste ano o tal site ganhou um ponto final. Eu não escrevia maldade nem atacava pessoas. Contumaz meus amigos. Mas ao exceder aquilo que em mim eu sabia o que era, e não reconhecia, acabei rumando para terceiros, que também não se reconheciam. E isso é de deixar qualquer um emputecido. Por essas e outras meu site acabou sendo descoberto e, pra piorar, não foi denunciado, foi ganhando audiência (exatamente sete pessoas, que não podiam saber uma das outras - afinal, eu falava delas para elas mesmas).

Sei que está faltando dizer aqui o que raios eu escrevia. Bom, não dá pra republicar, mas era mais ou menos isso: eu tenho meus defeitos, os reconheço, mas os escondo; a pessoa tem os defeitos dela e age da mesma maneira que eu; mas quando eu escrevia exaltava isso, como se elas não fossem capazes de esconder os tais defeitos. Foi algo assim. Algo como: conto como são as pessoas em pessoas que elas não são (personagens, por exemplo). Acho que cheguei até a inverter uns pelos outros. O certo era que mentira não faltava. E isso era tão intrigante que parecia uma novela.

Mas a vontade que eu tinha de saber o que cada uma delas achava quando estava ali me levou a deixar que rolasse uma intercomunicação (na base do e-mail) e aí todo mundo foi se descobrindo. Foi quando tudo acabou. Confesso que me arrependo, porque é gostoso demais escrachar pessoas que marcaram sua vida. Elas te desarmam, mas você pode provar que não perdeu a guerra e isso, para mim, apelão e vingativo que só vendo, foi sedutor.

Foi uma barbaridade mais dantesca que a outra. Coisa linda! O mérito morreu em: "Você não podia ter dito aquelas coisas. Você não estava autorizado a me conhecer melhor do que eu mesma. Tenho segredos tão sujos que nem me atrevo a pensar neles e você vai lá e os escancara? Como você sabia?" (frase no feminino, notou?). É a velha história da bola de cristal. Eu tinha a minha portátil, imagine só a eficiência. Sinal melhor do que o dos celulares de hoje.

2004 - Garanto que não ofendi ninguém. Nada daquilo era mentira. O jeito de contar era, mas a essência não. Era retratar pessoas verdadeiras com nomes diferentes. Mas como únicos que somos, sabemos nos reconhecer em outras pessoas - nas tais personagens, para ser mais preciso.

O antigo título do site era "Dores nas costas". De filosofia mais ou menos assim: "de tanto carregar coisas e pessoas que não podem ser deixadas em lugar algum". Então era fácil entender. Se eu carregava um fardo precisava, ao menos, reclamar dele. E alguém tem que ouvir, ou não tem graça. E se não levamos a vida com doses bem humoradas envelhecemos rápido demais. E eu cago de medo de envelhecer. Você não imagina como.

Depois de seis meses de poeira baixa, resolvi investir num blog. Eu ainda nem conhecia o sistema e, confesso, não me agravada. Era chato em pensar em blog como diário. Cotidiano inapimentado não dá.

Eis então, que em uma das tentativas de mudar o jeito de escrever, me pego com uma poesia negra, cheia de ocultismo e coisas difíceis de entender. Primeiro, poesia não era minha praia. Segundo, literatura gótica não era nem mesmo uma prancha. Mas uma coisa funcionou sobre a outra e surgiu a expressão "Sabedoria da Mentira". Achei brilhante! Reportava o passado e o futuro da maneira que eu o quisesse, já que, com uma mentira, as mesmas coisas poderiam ser escritas com nova roupagem. Porém...

Queria escrever com um bisturi e fazer jorrar sangue de mim mesmo para o papel. E uns textos conseguiram ensangüentar tudo. Mas foram poucos e me era rara a mesma inspiração.

E, de fato, minhas pretensões já eram literárias, mas foram modificadas por pequenos acontecimentos. Um deles foi o fato de eu me dedicar a compensar os novos amigos. Para eles escrevi ótimos textos. Ótimas observações unilaterais. Morri de vontade de acertar quem eles eram, a parte que não mostraram, que não contaram. Creio ter obtido sucesso. Mas, ao final desse ano, percebi que só escrevi para os outros e isso me deixou um pouco vazio.

2005 - Nos primeiros meses nada mudou. E continuei pesquisando uma melhor novidade em mim mesmo. Mas só pude trazer de novo o layout do blog. Muito melhor, muito mais novidade. Mas passei este ano injetando glamour apenas na aprência. Pois claro, senão lógico: eu precisava me encontrar no inédito e, com propriedade, cravar um estilo.

Com o advento do Orkut, e uma comunidade do blog criada na rede, um sucesso de acessos começou e, de certa forma, foi uma faísca de motivação. Mas nada que acontecia na comunidade do Orkut remetia ao blog numa espécie de sincronia. Creio que as pessoas não entenderam como um e outro deveria convergir. Ao final, aquele grupo de pessoas parece residir em uma pequena ilha (egocentro de cada um) e não sabem ainda que devem cá descobrir um pouco de si mesmos.